O desejo que move os poetas não é ensinar, esclarecer, interpretar. O desejo que move os poetas é fazer soar de novo a melodia esquecida.
Rubem Alves

domingo, 11 de setembro de 2016

A HORA DA ESTRELA COMO PROPOSTA DIDÁTICA

A grandiosidade desse romance e a hábil capacidade artística de quem o escreveu fazem com que esta seja uma excelente proposta didática. No entanto, antes de darmos vazão ao propósito que ora se firma, convém nos atermos a um questionamento bastante relevante: num contexto educacional, sobretudo voltado para turmas do ensino médio, como têm sido as aulas de Literatura?
Sabemos que a disciplina integra um dos componentes curriculares, mas as obras literárias, as quais compõem o planejamento do educador, será que têm sido aproveitadas e exploradas tais quais merecem? Será que a finalidade da leitura não se atém a somente uma mera obtenção de pontos? E os resumos? Ah! Pode ser que esses estejam em plena ascensão, pois se é para “atingir”, pelo menos, a média mínima, não faz mal algum.
Mediante esse fato lastimável, o qual, sem sombra de dúvidas, tende a prevalecer na sala de aula, faz-se necessário que algumas propostas sejam seriamente repensadas, no sentido de materializar os reais objetivos da disciplina em questão – como, por exemplo, o de promover a habilidade reflexiva por parte dos educandos. Para tanto, o modo como os procedimentos didáticos são conduzidos se torna fator preponderante.
Partindo desse princípio, o artigo em questão tem por finalidade apresentar algumas sugestões válidas e, para tal, o enfoque principal faz referência ao romance A hora da estrela, de Clarice Lispector. 
Como passo inicial, consideramos essencial a apresentação biográfica da autora, de modo a fazer com que os alunos se situem, familiarizem-se com a personalidade artística que lhes é apresentada. Em seguida, o educador pode conduzi-los à biblioteca no sentido de verificar quantos exemplares estarão disponíveis, haja vista que será determinado um tempo “x” para a leitura da obra na íntegra. Caso o número não atenda a classe por completo, torna-se importante aconselhá-los a se deslocarem para outras bibliotecas, disponíveis na cidade onde residem. O importante é ninguém ficar sem ler.  
Reservar pelo menos dois dias da semana para a discussão de aspectos pertinentes à obra conduz os aprendizes ao perfeito entendimento do enredo proposto pela narrativa. Algumas perguntas, nesse instante, revelam grande eficácia, tais como: que ponto da narrativa lhes chamou mais a atenção? O que acham dos personagens? Qual foi o propósito da escritora ao escrever um romance desta natureza?
Partamos agora para a análise propriamente dita: para começar, uma boa sugestão é que o educador dê ênfase na diferença existente entre o autor e o narrador. Vejamos, pois, um fragmento que bem explicita tal questão:
Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora seja obrigado a usar as palavras que vos sustentam. A história – determino com falso livre arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e 'gran finale' seguido de silêncio e chuva caindo.
Diante do fragmento ora exposto dá para se ter uma ideia que o narrador se define como um narrador-personagem – Rodrigo S. M. Teria ele alguma semelhança com a pessoa de Clarice? Para ilustrar também tal discussão, atentemo-nos para outro fragmento:
Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás – descubro eu agora – também não faço a menor falta, e até o que eu escrevo um outro escreveria. Um outro escritor sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.
Podem, portanto, existir semelhanças entre a escritora e Rodrigo S. M., principalmente quando há menção do vocábulo “escritora”.
Passando para a personagem principal do romance – Macabéa. A discussão pode ganhar ainda mais força por meio de um caloroso debate, a começar pela seguinte pergunta: quantas Macabéa existem por aí? Será que a construção de tal personagem teria algo relacionado à posição ideológica da autora em relação ao contexto social da época em que viveu?
O educador pode ressaltar que, assim como Graciliano Ramos, e tantos outros representantes de nossas letras, que, por meio de um tom regionalista, tão bem souberam explorar questões voltadas para o cenário social, certamente Clarice seguiu a mesma linha de raciocínio. Assim, revelou por meio da protagonista aquele nordestino retirante que parte para outras regiões em busca de melhores condições de vida. No entanto, Macabéa parece ser diferente da maioria, parece um tanto mais complexa.
Momento esse sugestivo para o educador enfatizar as características que nortearam os posicionamentos ideológicos dos escritores da geração de 1945. É só olhar para Guimarães rosa com seu esplendoroso Grande Sertão Veredas.
Os alunos talvez se surpreendam e se apaixonem pela Literatura quando entenderem as reais razões expressas pelo tracejar do perfil de Macabéa. É bom que o professor revele que um dos aspectos que demarcam a temática de Clarice é exatamente a questão do transcendentalismo, ou seja, a relação que se estabelece entre o ser e seu mundo interior.
Outra questão que pode ser explorada de forma singular é a alienação do ser humano junto às coisas que o rodeiam, assim como, por exemplo, o fato de Macabéa gostar somente de Coca-Cola e em seus momentos de “glamour” reascender sempre o desejo de imitar as estrelas dos filmes de Hollywood. Talvez por essa “alienação” é que a estrela que cada um tem dentro de si, assim como Macabéa também a tinha, deixe-se ofuscar, pois foi preciso morrer para que a estrela de mil pontas (tal aspecto representa os sonhos da personagem, antes omitidos dentro de si mesma) aparecesse. Assim sendo, voltemos a mais um fragmento: 
Se iria morrer, na morte passava de virgem à mulher. Não, não era morte pois não a quero para a moça: só um atropelamento que não significava sequer um desastre. Seu esforço de viver parecia uma coisa que se nunca experimentara, virgem que era, ao menos intuíra, pois só agora entendia que mulher nasce mulher desde o primeiro vagido. O destino de uma mulher é ser mulher. Intuíra o instante quase dolorido e esfuziante do desmaio do amor. Sim, doloroso reflorescimento tão difícil que ela empregava nele o corpo e a outra coisa que vós chamais de alma. (...)
Nesta hora exata, Macabéa sente um fundo enjoo de estômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas.  (grifos nossos)
Explorados todos esses elementos, para fechar “com chave de ouro”, seria interessante uma dramatização da narrativa lida. Já imaginou uma aluna da classe vestida de Macabéa? Vale a pena registrar esse momento, de modo a não ficar somente no álbum da memória, não acha?

Por Vânia Duarte
Graduada em Letras
in: http://educador.brasilescola.uol.com.br/estrategias-ensino/a-hora-estrela-como-proposta-didatica.htm

Nenhum comentário: